Anselmo Borges

Esperanza enlutada

"Há quem acredita e há quem não acredita e uns e outros crêem"

Esperanza enlutada
Anselmo Borges

Perante o horror do mundo e todos os mortos e todas as vítimas, percebemos o ateísmo

(Anselmo Borges).- À memória do meu irmão Marinho Borges

1 Quando se pensa em Deus e na morte (a dupla face do absoluto), é no abismo da perplexidade que se cai. Pascal disse-o de modo inexcedível: «Incompreensível que Deus exista, e incompreensível que não exista; que a alma seja com o corpo, que não tenhamos alma; que o mundo seja criado, que o não seja, etc.» Ninguém pode dizer que sabe que Deus existe ou que não existe. Deus não é «objecto» de saber, mas de fé. Há quem acredita e há quem não acredita e uns e outros crêem, com razões.

De qualquer modo, Deus continuará sempre presente enquanto questão in–finita. Como escreveu recentemente A. Comte-Sponville, um dos filósofos actuais mais influentes, que se define como «ateu fiel»: «As religiões são tão antigas como a humanidade civilizada. Há todos os motivos para pensar que durarão tanto quanto ela. O universo é um mistério, que permanecerá para sempre inexplicável. A vida, uma prova, que continuará sempre frágil. A consciência, um sofrimento, para sempre inconsolável. Porque há algo e não nada? Não sabemos. Nunca saberemos. Porque é que existimos? O que é que nos espera depois da morte? Também não sabemos. Isso deixa espaço aberto para as religiões, portanto, também para o ateísmo, que é mais recente, uma vez que pressupõe a ideia de Deus e depois a sua crítica, e igualmente sem provas. A questão de Deus, filosoficamente, permanece aberta: só podemos responder em termos de crença ou não crença, uma e outra subjectivas, sem que algum saber possa alguma vez fechar o debate. Lição de tolerância, para cada um, e de humildade, para todos.»

2 Quando se fala de Deus, que queremos dizer? Mais uma vez, com A. Comte-Sponville: «Entendo por «Deus» um ser eterno, espiritual e transcendente, que teria consciente e voluntariamente criado o universo. Supõe-se que é perfeito e plenamente feliz, omnisciente e omnipotente. É o Ser supremo, criador e incriado (é causa de si), infinitamente bom e justo, de quem tudo depende e que não depende de nada. É o Absoluto em acto e em pessoa». O Mistério último, Origem e Fundamento de tudo, Criador e Salvador.

Perante o horror do mundo e todos os mortos e todas as vítimas, percebemos o ateísmo. Como é possível tanto mal? Mas quem recusa Deus assalta-o outra pergunta: se Deus não existe, donde vem o bem e a nossa revolta, desde a raiz, contra o mal e a morte, clamando por justiça e salvação para as vítimas inocentes? Porque, sem Deus, afundamo-nos no nada e anula-se, em última análise, a própria diferença entre bem e mal. Por isso, para J. Habermas, o maior filósofo vivo, agnóstico, o que mais nos inquieta é «a irreversibilidade dos sofrimentos do passado – a injustiça contra as pessoas inocentes, vítimas de maus–tratos, aviltamento e assassinato – sem que o poder humano possa repará-los», acrescentando: «A esperança perdida da ressurreição» sente-se como «um grande vazio».

3 Em Domingo de Páscoa, lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas também sabemos que, «depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a «ressurreição»»: aquele que tinha morrido realmente apareceu como «pessoa viva, mas transformada». «Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso». Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a história. Grande parte da humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta de Vida eterna.

4 Peço desculpa por me permitir publicar aqui o «poema final», escrito por Marinho Borges, pouco antes de morrer a 4 deste mês, para ser publicado após a sua partida. Foi encontrado por um dos filhos no seu Diário:

«Partirei de manhã bem cedo/Subirei cá do fundo até S. Cristóvão/Para rever o milagre do nascer do Sol/Surgindo da Serra das Meadas/E assistir à explosão de Vida neste nosso vale de Paus/ Partirei de manhã bem cedo/E subirei, subirei/Até ganhar folga para esvoaçar com as aves/Não toquem a rebate/Não chamem a GNR/Não avisem as autoridades/Porque não desapareci/Não toquem a finados/Porque não morri/Apenas subi e parti/Ninguém me encontrará morto/Subi e parti rumo à Eternidade./Sempre vivo./O nosso amor continua./Sois a minha vida./Continuareis a sê-la na minha outra vida./Subi, subi, subi e parti ao raiar da madrugada/Ao encontro de Deus proclamado e experienciado por Jesus Cristo/E testemunhado pela nobreza e honra dos meus pais e tios/E pelos percursos de vida exemplares de milhões de pessoas/ao longo dos séculos./Não toquem nunca a finados./Porque não morri./Apenas parti…»


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Autor

José Manuel Vidal

Periodista y teólogo, es conocido por su labor de información sobre la Iglesia Católica. Dirige Religión Digital.

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