Anselmo Borges

Excepcionalismo

"As religiões institucionais têm do melhor e do pior"

Excepcionalismo
Anselmo Borges

De facto, a história mostra que, sem esta conversão e esta vigilância, se está sob a ameaça do que diz a expressão: corruptio optimi pessima

(Anselmo Borges, en DN).- 1. Sempre que se fala em religião tem de se atender a uma distinção essencial. Sem ela, todo o debate se anula em confusões. Há a religiosidade, que consiste naquele movimento de transcendimento que se defronta com o Mistério, a que os fenomenólogos da religião chamam o Sagrado. Religioso é aquele que se entrega confiadamente a esse Mistério-Sagrado, do qual espera salvação.

Depois, neste enquadramento religioso, entende-se que apareçam as religiões institucionais, que são construções humanas enquanto mediações entre o Mistério ou o Sagrado, Deus, e os homens e mulheres, e entre estes e aquele. Nas religiões, encontram-se concretamente quatro dimensões: a dimensão teológico-doutrinal, a litúrgico-celebrativa, a ético-moral e a organizacional.

Nesta distinção entre religiosidade, religiões e Sagrado-Mistério, entende-se que as religiões estão referidas ao Sagrado, Deus, mas não são Deus, o Sagrado, o Mistério, que todas tentam dizer, mas que a todas transcende. Por outro lado, percebe-se que pode acontecer que alguém tenha feito e faça uma experiência mística, religiosa, de autêntico encontro com Deus e, no entanto, não se relacione, ou pouco, com a religião institucional, como pode acontecer que alguém viva na e da religião institucional, se sirva dela para fins económicos, políticos, estratégicos, de prestígio, etc., – no limite, que alguém mate em nome da religião – e não tenha nenhuma experiência religiosa autêntica, viva.

2. As religiões institucionais têm, portanto, do melhor e do pior e correm constantemente perigos terríveis, sobretudo por causa da sua vinculação ao poder. No caso do cristianismo, há aquele dito famoso: «Jesus pregou o Reino de Deus e o que apareceu foi a Igreja», que se transformou em poder. E aí está Karlheinz Deschner com os seus dez volumes de A História Criminosa do Cristianismo, onde descreve o lado obscuro da Igreja, com todos os dramas e as opressões que ela causou, com a Inquisição à cabeça.

O teólogo Xabier Pikaza afirma que «o Vaticano dizia confiar na razão, mas que há poucas instituições importantes que se tenham oposto à razão mais do que o papado, no seu magistério normal, na linha da política e da cultura, nos últimos séculos (de 1600 a 2000). Quase até meados do século XX, os papas rejeitaram a liberdade religiosa, opuseram-se à democracia, condenaram o liberalismo e o progresso, negaram os direitos humanos, criticaram a autonomia da imprensa, etc., etc. Além disso, o papado promoveu noutros tempos as guerras de religião, instituiu inquisições, quis converter os «infiéis» com a ajuda da espada dos «reinos católicos» (Espanha e Portugal), perseguiu os hereges… Nessa linha, sempre que tomou a verdade como objecto de posse e de poder sagrado, foi muito falível, em temas concretos de fé e costumes».

Como foi possível tudo isto? O famoso historiador Otto Seeck – cito a partir de Mikel Arizaleta – caracterizou assim o desenvolvimento da Igreja: «Enquanto permaneceu circunscrita ao povo das camadas baixas foi democrática e social; quando começou a apoiar–se nas classes superiores foi adquirindo e adoptando a forma de organização que dominava na vida civil da época, aquele despotismo ilimitado com a sua hierarquia de funcionários. Esta mudança operou-se lentamente, sem saltos repentinos, de modo que os contemporâneos não se deram conta. O que se impôs por razões práticas converteu-se primeiro em costume eclesial, depois em lei sagrada e rapidamente já ninguém se lembrava de que em tempos foi diferente.»

3. Aí está, portanto, a urgência em voltar permanentemente ao fundamental, que é a experiência religiosa, mística, do encontro pessoal com Deus enquanto fonte de sentido e salvação. Esta experiência, que implica a palavra decisiva que é a conversão, impõe a vigilância crítica constante sobre as religiões enquanto instituições, para evitar a queda na perversão do que verdadeiramente deve ser a religião enquanto mediadora entre Deus e os homens e entre estes e Deus.

De facto, a história mostra que, sem esta conversão e esta vigilância, se está sob a ameaça do que diz a expressão: corruptio optimi pessima (a corrupção do óptimo é a pior). A vigilância significa autocrítica e atenção à crítica que vem de fora. É neste sentido que me não canso de repetir: ai de nós, os crentes, se não houvesse ateus – refiro-me sempre àqueles que sabem o que isso quer dizer -, que, precisamente porque estão fora das religiões, mais facilmente se dão conta da inumanidade e da superstição que tão frequentemente as habitam! Evidentemente, a conversão não significa encerrar-se na interioridade, pois ela implica e exprime a sua verdade no compromisso de um amor eficaz, ético-político, ao próximo.

4. Nestes tempos de globalização e de sociedades cada vez mais multiculturais e de pluralismo religioso, em ordem à paz e à convivência, há também condições políticas, nomeadamente as que se referem à laicidade e ao laicismo, que se impõe reflectir. É o que tentarei no próximo sábado, referindo concretamente o cristianismo e o islão.

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Autor

José Manuel Vidal

Periodista y teólogo, es conocido por su labor de información sobre la Iglesia Católica. Dirige Religión Digital.

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