Anselmo Borges

O islão e as luzes (II)

"Fazer da liberdade de consciência e da liberdade de pensamento virtudes muçulmanas"

O islão e as luzes (II)
Anselmo Borges

"Reinventar a racionalidade e o sentido da história para viver melhor a fé: eis uma atitude subtil que Deus julgará de modo positivo

Más información

(Anselmo Borges, en DN).- Continuo com o Manifesto a Favor de Um Islão das Luzes, de Malek Chebel. As outras propostas urgentes:

8. «Sancionar de modo mais severo os autores de crimes de honra.» Mas não basta a sanção. É preciso ir mais fundo, libertando os valores de vontade pessoal e escolha amorosa feminina. «Enquanto a mulher não tiver a possibilidade de formular escolhas amorosas independentes, não poderá ser tomada a sério.»

9. «Modernizar a lei civil e o código pessoal.» Impõe-se um direito positivo mais conforme com o espírito do tempo, não identificado com a sharia, a lei religiosa. Sem se ser radical, «examinar o conjunto do potencial do direito islâmico, determinar a parte ainda viva, isto é, capaz de evoluir, depois adaptá-lo às novas condições de existência dos muçulmanos, afastando o que se tornou caduco. Este estudo deverá denunciar os aspectos mais retrógrados da sharia: cortar a mão ao ladrão e a língua ao mentiroso, colocar de quarentena a mulher durante a menstruação, aplicar a lei de talião, divisão injusta da herança, etc.».

10. «Reavaliar o estatuto da mulher.» Toda a misoginia ligada à suposta inferioridade da mulher «desfigura o islão e dá uma má imagem do terceiro monoteísmo». «Repúdio, poligamia, casamentos forçados (e sobretudo casamentos precoces com 11 ou 13 anos), raptos de jovens raparigas, difamação das mães celibatárias e assassinatos perpetrados em nome da honra: aí estão alguns aspectos – flagrantes – da inferioridade jurídica da mulher muçulmana em relação ao homem», fundada na sua anatomia e fisiologia, muitas vezes consideradas mais importantes do que «o seu ser profundo». A mulher não pode ser considerada menor toda a vida.

11. «Dar à justiça os meios da sua independência.» De facto, hoje a justiça parece não ter autonomia e independência reais.

12. «Remeter o trabalho para o coração da cidade.» De facto, mesmo se é necessário determinar o sentido de esforço, o próprio Alcorão (53, 39) repete: «O homem não desfrutará senão dos frutos do seu esforço.» Impõe-se a luta contra a miséria e a discriminação económica.

13. «Lembrar a preeminência do indivíduo sobre a comunidade.» Evidentemente, não está em causa o valor da comunidade. Mas o fenómeno da «fusão do sujeito no colectivo retardou, e por vezes impediu, a emergência da esfera privada, sendo o indivíduo singular o pivô desta, com as suas exigências de intimidade e expressão pessoal». Por exemplo, há esta contradição: vestindo eles à ocidental, não têm pejo em impor o véu às suas mulheres.

14. «Lembrar o primado da política em matéria de gestão da sociedade.» É a questão essencial da separação da religião e da política. Sem secularização, a não confundir de modo nenhum com secularismo, tal como se não pode confundir laicidade com laicismo, não se vê como se dará o salto para o progresso.

15. «Lutar contra o assassinato político mediante uma democratização dos regimes.»

16. «Fazer da liberdade de consciência e da liberdade de pensamento virtudes muçulmanas.» Um dos aspectos mais urgentes em ordem a um novo humanismo e, no entanto, um dos mais difíceis ou até o mais difícil, porque o islão é ao mesmo tempo «um mundo profano e um universo espiritual, um Estado político e uma religião de transcendência, um código de conduta aplicável in extenso e um guia moral».

17. «Desfazer-se do culto da personalidade», que serve os regimes opacos e não democráticos.

18. «Respeitar escrupulosamente o outro.» Porquê uma mesquita em França e não uma igreja na Arábia Saudita?

19. «Levantar a hipoteca que toca o dinheiro.» Há ou não «um contraste indecente» entre a riqueza fenomenal de alguns muçulmanos e a pobreza igualmente alucinante de outros?

20. «Sem complacência com a corrupção.»

21. «Iniciar uma política voluntarista em matéria de novas tecnologias.»

22. «Definir uma política clara no domínio da bioética»: quanto ao preservativo, contracepção feminina, aborto, bancos de esperma, fecundação artificial, barrigas de aluguer, eutanásia…

23. «Lembrar a obrigação ecológica.»

24. «Liberalizar o som e a imagem.»

25. «»Despenalizar» o jogo e as diversões.» Reconhecer a importância da criação artística e o contributo das actividades lúdicas para o equilíbrio.

26. «Investir no domínio da governança global.» Impõe-se «um dever de solidariedade com o resto do planeta».

27. «Tornar prioritário o investimento no ser humano.» Como pretender salvaguardar a dignidade de muçulmano, «se não se respeita o homem, o vizinho, a mulher, a criança, o estrangeiro, o adepto de outra religião?»

Conclusão: «Reinventar a racionalidade e o sentido da história para viver melhor a fé: eis uma atitude subtil que Deus julgará de modo positivo.»

Todas estas propostas valem também, digo eu, para a Igreja Católica e todos os crentes. É falsa toda a religião que se opõe à dignidade e aos direitos humanos. A religião verdadeira é a favor da promoção humana, da sua dignidade inviolável e dos seus direitos. Por palavras e por obras.

CONTRIBUYE CON PERIODISTA DIGITAL

QUEREMOS SEGUIR SIENDO UN MEDIO DE COMUNICACIÓN LIBRE

Buscamos personas comprometidas que nos apoyen

COLABORA
Autor

José Manuel Vidal

Periodista y teólogo, es conocido por su labor de información sobre la Iglesia Católica. Dirige Religión Digital.

Recibe nuestras noticias en tu correo

Lo más leído