Anselmo Borges

Francisco não tem razão? (1)

"Francisco é hoje um líder político-moral global, dos mais amados"

Francisco não tem razão? (1)
Anselmo Borges

Não tem razão quando denuncia o clericalismo e o carreirismo como "peste" na Igreja?

(Anselmo Borges, en DN).- Não tem razão o Papa Francisco quando, ele que acredita no Evangelho de Jesus enquanto notícia boa e felicitante para todos da parte de Deus e que segue os seus ensinamentos e prática, apela a que todos os católicos, começando por cardeais, bispos, padres, se convertam e sigam também o Evangelho?

Não tem razão quando proclama tolerância zero para essa tragédia que é a pedofilia do clero e estabelece regras claras, internacionalmente reconhecidas, para que acabem as máfias no banco do Vaticano e a lavagem de dinheiro e haja total transparência?

Não tem razão quando exige uma reforma profunda na Cúria Romana, que tem de estar ao serviço da Igreja universal? Não tem a Igreja de respeitar no seu seio os direitos humanos, que não pode pregar apenas para fora, nomeadamente o direito à liberdade de pensamento e de expressão? Não tem razão ao deixar campo livre à missão dos teólogos para poderem investigar?

Não tem razão ao querer que a Igreja enquanto instituição siga um caminho sinodal, isto é, um caminho que se trilha em conjunto, com a participação de todos, uma vez que a Igreja são todos os seus membros? Não tem razão ao declarar que os leigos têm de participar activamente nas decisões da Igreja e que às mulheres tem de ser dado o seu lugar, também em postos cimeiros de decisão, não podendo, como Jesus exigiu, ser discriminadas? De facto, enquanto organização, a Igreja, se quiser seguir o exemplo de Jesus e não ficar cada vez mais atrasada em relação ao mundo, tem dois problemas fundamentais a resolver: por um lado, a democratização e, por outro, a integração das mulheres, sem discriminação.

Não tem razão quando afirma que o celibato obrigatório não é dogma e que é preciso começar a pensar em ordenar homens casados, modelos de virtude e de participação activa na vida da Igreja?

Não tem razão quando denuncia o clericalismo e o carreirismo como «peste» na Igreja? E quando chama a atenção contra os «bispos-príncipes» e os «bispos de aeroporto»?

A Igreja Católica é hoje a única instituição verdadeiramente global. Contra a uniformidade, não tem razão Francisco quando pede uma Igreja que não funcione à maneira de esfera, mas que se realize segundo o modelo do poliedro, isto é, uma só Igreja, mas inculturada nos diferentes continentes e atendendo às várias culturas? Quando se entenderá que a Igreja já não é eurocêntrica e que o Papa não pode ser um monarca absoluto, mas sinal de unidade na caridade? Neste sentido, não tem razão Francisco ao não se referir a si mesmo como Papa, mas como bispo de Roma?

Não tem razão ao propor caminhos de progresso no ecumenismo, apelando por palavras e obras à unidade das diferentes Igrejas e confissões cristãs? Não tem razão ao seguir para Lesbos acompanhado do patriarca de Constantinopla, ao encontrar-se com o patriarca de Moscovo em Havana, ao querer que os 500 anos da Reforma sejam celebrados conjuntamente por católicos e protestantes e ao declarar que Lutero tinha razão e que não queria dividir a Igreja?

Não tem razão ao promover o diálogo inter-religioso de todas as religiões, mais concretamente com o islão moderado? De facto, ele sabe que o número de cristãos e muçulmanos juntos é superior a mais de metade da humanidade, de tal modo que faz sentido a pergunta: se nos entendêssemos todos, não haveria nessa compreensão uma força excepcional a favor da paz no mundo todo? Mas Francisco não tem igualmente razão quando denuncia como blasfema a violência em nome de Deus? E não tem razão também quando apela à comunidade internacional a favor dos cristãos, concretamente no Médio Oriente, vítimas de uma perseguição brutal? Não é verdade que, ainda antes das invasões ocidentais, estava já a caminho uma política de extermínio do cristianismo no Médio Oriente, onde, no início do século XX, os cristãos constituíam ainda um quinto da população? Não é hoje o cristianismo a religião mais perseguida do mundo?

Francisco é hoje um líder político-moral global, dos mais amados, senão o mais amado, dos mais influentes, senão o mais influente. E está ao serviço da paz mundial. Não tem razão, quando diz que a terceira guerra mundial está em curso, embora aos pedaços, às fatias, e o que mais teme é que essa guerra de repente expluda e se torne mesmo global e até nuclear, ameaçando a sobrevivência da humanidade?

Não tem razão quando escreve uma encíclica – «Laudato si» – sobre o meio ambiente e a ecologia integral, para que a humanidade toda tome consciência de que precisamos de salvar a nossa casa comum, pois podemos estar em vésperas de um cataclismo ecológico de dimensões imprevisíveis e irreversíveis? Não tem razão, ele que não é comunista nem marxista, quando proclama, com Jesus, que não é possível servir ao mesmo tempo a Deus Pai e Mãe de todos os homens e mulheres, sem excepção, e ao deus Dinheiro? Que a economia tem de estar ao serviço da pessoa humana, de todas as pessoas, e não da financeirização especulativa, que faz milhões de vítimas? Não é urgente a constituição de instâncias políticas globais, para a regulação dos mercados e da economia global?

Não tem o Papa Francisco razão quando afirma, por palavras e obras, que a Igreja não pode ser auto-referencial, já que a razão da sua existência é o serviço da humanidade? Não era o famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que, com razão, dizia que «uma Igreja que vive para si morre por si»?

Então, porque é que Francisco tem opositores e inimigos? Mesmo sem querer canonizá-lo, a resposta é simples: se se quiser ser honesto, exactamente pelas mesmas razões que Jesus também os teve.

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Autor

José Manuel Vidal

Periodista y teólogo, es conocido por su labor de información sobre la Iglesia Católica. Dirige Religión Digital.

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