María Clara Luchetti

Dom Pedro: uma vida que dá sentido a muitas vidas

"Sua língua de fogo não hesitou em proclamar ao longo desses muitos anos os direitos dos pobres como direitos de Deus"

Dom Pedro: uma vida que dá sentido a muitas vidas
Maria Clara Lucchetti Bingemer

Falando de justiça e de esperança, fazia todos estremecerem pela força de suas palavras

(Maria Clara Lucchetti Bingemer).- A Igreja do Brasil e de vários pontos do mundo volta seu olhar ao longo desta semana para um ponto perdido do estado do Mato Grosso à beira do rio Araguaia. Ali está a prelazia de São Felix do Araguaia, onde vive o poeta e profeta Pedro Casaldáliga, que completa noventa anos de idade no próximo dia 16.

Eu o conheci primeiramente pela escuta dos que sobre ele testemunhavam. Tocados por sua poesia, inspirados por sua profecia, referiam-se a ele de tal maneira que desejei conhecer pessoalmente seus textos. Seu livro autobiográfico «Yo creo en la justicia y en la esperanza», com a introdução intitulada «La vida que ha dado sentido a mi credo», tocou-me sobremaneira. Ali eu encontrava e apalpava a mística que dava sustentação à teologia que pretendia fazer. Cheia de jovens e imoderados desejos, os textos de Pedro me revelavam a seriedade de um compromisso que tomava por inteiro uma vida: a dele.

Alguns anos depois, quando já me encontrava na pós-graduação em teologia da PUC-Rio, pude ouvi-lo falar. Assim também em Itaici, por ocasião de um congresso organizado pelos padres passionistas. A primeira impressão ao ver aquela figura magrinha e aparentemente frágil foi transformada pela primeira palavra que saiu de sua língua de fogo. Falando de justiça e de esperança, fazia todos estremecerem pela força de suas palavras. Agigantava-se e alcançava dimensões impensáveis com sua fé e profecia.

Em minhas aulas de teologia usei vários de seus poemas que inspiravam os alunos e os conduziam à reflexão sobre a Revelação e a Palavra de Deus. Pois, com toda o fogo de seu testemunho e sua profecia, Pedro é também poeta. Dedica poemas ao rio. Sua sensibilidade é capaz de extasiar-se com a beleza do Araguaia «que pulsa sob seus pés como uma artéria viva», com a mata verdejante e expressa seu louvor em versos ao Criador de toda essa maravilha. E seus versos andam «cheios de Deus como pulmões cheios do ar vivo».

Como profeta, sua língua de fogo não hesitou em proclamar ao longo desses muitos anos os direitos dos pobres como direitos de Deus. E ao tomar progressiva consciência da dura servidão à qual não poucos proprietários de terras reduziam aqueles que desejavam apenas uma terra para cultivar e plantar, não poupava denúncias e críticas. Tudo isso lhe valeu perseguições e ameaças as mais diversas e violentas. Mas jamais deixou de explicitar o que o impulsionava ao viver sua vocação profética, admitindo não saber «se seria capaz desses caminhos se não estivesse Deus como uma aurora rompendo sua névoa e seu cansaço».

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Autor

José Manuel Vidal

Periodista y teólogo, es conocido por su labor de información sobre la Iglesia Católica. Dirige Religión Digital.

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