80 anos de Pedro Casaldáliga

Cidadão universal com coração latinoamericano

"A opção pelos pobres"

Cidadão universal com coração latinoamericano
Pedro Casaldáliga, manantial de amor

É de todos conhecida a admiração que Pedro tem pelos mártires e pelo martírio. Talvez porque sendo menino viu ser assassinado durante a guerra civil espanhola a seu tio Luis, sacerdote jovem

(Paulo Gabriel, Agostiniano).- «Tenedme por latinoamericano
tenedme simplemente por cristiano
si me créis y no sabeis quien soy».

Assim se expressa Pedro Casaldáliga num dos seus poemas. E acrescenta:

«Somos um Continente na opressão e na dependência. Devemos ser também um Continente na libertação, autóctone, um Continente na alternativa social, política e eclesial».

Sinto a «latinoamericanidade» como um modo de ser que a nova consciência acumulada -de povos oprimidos e irmãos e em processo de libertação- nos possibilita e nos exige. Um modo de ver, um modo de partilhar, um modo de criar o futuro, livre e libertador. Solidariamente fraterno. Ameríndio, negro, crioulo. De todo um povo, feito de muitos povos, nesta comum Pátria Grande, terra prometida-proibida até agora – de onde emana leite e mel. Uma espécie de conaturalidade geográfica-espiritual que nos faz vibrar juntos, lutar juntos, chegar juntos.

É muito mais que uma referência geográfica: é uma história comum, uma atitude vital, uma decisão coletiva».

Esse texto Pedro o escreveu na Agenda Latinoamericana de 1993.

Foi-me pedido para escrever sobre Pedro e a América Latina neste número comemorativo dos 90 anos, a contribuição dele na caminhada da Igreja Latinoamericana.

Cabeça e coração latinoamericanos

Por motivo dos 80 anos de Pedro eu escrevi no livro comemorativo que naquele momento se publicou, que Pedro é um «Catalão universal» com coração latinoamericano.

Sentindo-se cidadão do mundo, suas causas são mais importantes que sua vida insiste em afirmar, causas comuns que ele resume no desafio de «humanizar a humanidade», ao mesmo tempo sua paixão pela América Latina é de todos conhecida. Conhece como poucos a história e a literatura latinoamericanas.

Pedro chegou ao Brasil em 1968, ano em que foi criada a Prelazia de São Félix do Araguaia e da qual seria nomeado primeiro bispo em 1971. O ano de 1968 é simbólico para a Igreja Latinoamericana, nele aconteceu o encontro do Episcopado Latinoamericano em Medellin, concretização pastoral do Concilio Vaticano II no nosso Continente.

A Prelazia de São Félix do Araguaia levou à risca na prática as intuições pastorais de Medellin: a opção pelos pobres e pela Justiça». Isso teve um preço alto na perseguição e no martírio, mas teve também a graça divina de ser uma Igreja pobre e na periferia do mundo que iluminou toda a Igreja com o seu testemunho evangélico. Na Prelazia de São Félix do Araguaia, afirma Leonardo Boff, aconteceu uma verdadeira «eclesiogênesis».

Deus me concedeu o privilégio de viver 20 anos ao lado de Pedro. Sou testemunha ocular de sua paixão pela América Latina, paixão que contagiou toda a equipe pastoral e todos aqueles aos quais chegaram suas palavras ou seus escritos. Amigo e admirador dos grandes bispos latinoamericanos, Santos Padres deste Continente, até hoje conserva no seu quarto as fatos de Mendez Arceo e Samuel Ruiz , mexicanos; Angelelli, argentino, assassinado pela ditadura daquele país, Leonidas Proaño, eqiuatoriano defensor dos índios, Helder Câmara, Tomás Balduino, brasileiros,e claro, presidindo todos eles, Oscar Romero, salvadorenho. Na capela da casa onde vive junto com a comunidade agostiniana, que agora cuida dele,conserva-se uma relíquia, fragmento da túnica ensangüentada de «São Oscar Romero de América» poema que percorreu o mundo, junto com outra relíquia de Ignacio Ellacuria, jesuita assassinado pela ditadura de El Salvador e grande pensador da teologia e da história latinoamericanas.

A paixão pela caminhada da Igreja em nosso Continente o levou a percorrer a América Central na década de 80. Lembro nitidamente do dia em que reuniu a equipe pastoral anunciando que se sentia chamado a ir a Nicarágua para solidarizar-se com a greve de fome que o então ministro e padre do governo sandinista, Miguel D’Escoto, levava a cabo. Ida e compromisso missionário que lhe trouxeram muitas conflitos com o episcopado daquele país e com a Cúria Romana, mas que ao mesmo tempo semeou muita esperança e testemunho evangélico naquelas comunidades tão machucadas pela guerra. Fruto daquela primeira viagem nasceu o livro «Nicarágua: combate e Profecia».

Em 1987 o Vaticano lhe comunicou que se voltava a Nicarágua seria deposto como bispo de São Félix do Araguaia. Depois de um longo discernimento na equipe pastoral, decidiu-se que eu fosse no lugar dele para explicar o que estava em jogo. Fui testemunha do carinho, da admiração e do respeito daquele povo nicaragüense com relação a Pedro, vendo nele o exemplo do «Bom Pastor». Respondeu às críticas afirmando que fora eleito bispo para ser bispo da Igreja e aquele povo era Igreja viva e crucificada.

A originalidade cristiã da Igreja latinoamericana

José Maria Vigil, claretiano com Pedro e grande amigo dele, juntos fazem há mais de 25 anos a «Agenda Latinoamericana» , publicou em 1991 na revista Sal Terrae, um artigo onde apresenta de forma clara e brilhante as característica da Igreja Latinoamerica. Apenas as enumero, porque são um verdadeiro resumo das opções de Pedro, características que ele ajudou a imprimir nesta Igreja:

A opção pelos pobres; as Comunidades Eclesiais de Base; a Teologia da Libertação; o estudo popular da Bíblia; a espiritualidade da Libertação; os Mártires; a fidelidade nos conflitos; a nova visão missionária; a solidariedade com todos os povos.

Por trás de cada um destes itens há uma nova compreensão da eclesiologia, do papel dos leigos e leigas na Igreja, da liturgia, da missão evangelizadora, do compromisso com a realidade, do diálogo inter-religioso, macro-ecumênico. Missão que se sintetiza no compromisso por ajudar a explicitar no mundo o Reino de Deus, já presente na história.

Felizmente o papa Francisco retoma hoje corajosamente para toda a Igreja as grandes intuições e compromissos da Igreja Latinoamericana, Igreja da qual ele é fruto.

A modo  de conclusão

É de todos conhecida a admiração que Pedro tem pelos mártires e pelo martírio. Talvez porque sendo menino viu ser assassinado durante a guerra civil espanhola a seu tio Luis, sacerdote jovem. Esta admiração pelos que entregam totalmente a vida no seguimento de Jesus e na construção do seu Reino, o levou a construir na Prelazia o Santuário dos Mártires. A Igreja Latinoamerica é rica no testemunho martirial, e como se dizia dos primeiros cristãos » o sangue dos mártires é semente de novos cristãos».

Pedro nunca escondeu que desejava a graça do martírio como prova maior do seu amor por Jesus de Nazaré. E Deus o escutou. Não conheço martírio maior que este que agora vive. Ele que foi o homem do gesto e da palavra vibrante fala agora com o seu silêncio imóvel ; ele que não aquietava ( a repressão lhe colocou o codinome de «palito elétrico») está há anos numa cadeira de rodas levado e trazido por mãos amigas. Eu que o conheci quando botava fogo em todos nós pela sua inquietude e teimosia, consigo ver agora na sua serenidade o testemunho maior do mártir vivo, a certeza de que Deus passou e continua passando por nossas vidas na pessoa humilde, carismática e plenamente humana que é Pedro. Verdadeira testemunha de Jesus . Nas últimas frases que amigos comuns conseguiram entender dele meses atrás afirmou: «agora sinto Deus em tudo».

Autor

José Manuel Vidal

Periodista y teólogo, es conocido por su labor de información sobre la Iglesia Católica. Dirige Religión Digital.

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